Mulheres nas artes marciais - Parte 2
10:59
Créditos: Sean Dreilinger
"Seja gentil, amável e bonita, mas firme e forte, tanto mental quanto fisicamente"
Keiko Fukuda
Continuamos a segunda e última parte do post sobre a história das mulheres nas artes marciais. Veremos incríveis karatekas e mestras em naginata-do e judô enfrentando preconceitos, tornando-se fortes e conseguindo seu espaço nesse incrível caminho da arte marcial. Se você quiser ler a primeira parte, clique aqui.
Tsuru Matsumura
Uma das histórias que mais gosto é a de uma mulher, praticante de To-dê (o antigo karatê), a forte e lendária lutadora Tsuru Yonamine, a esposa de Sokon Matsumura (1809-1901, um dos precursores do estilo Shorin-ryu). Tsuru gostava muito de praticar o sumô okinawano com outros homens e frequentemente ganhava as lutas. Também gostava de trocas de socos e full-contact. O pai dela estava desesperado para casá-la e até prometia dotes para quem fosse desposá-la. O problema era que cortejar Tsuru significava estar procurando por uma boa briga.
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Ilustração de Sokon Matsumura. Infelizmente não há nenhuma de Tsuru. |
Uma das histórias de Okinawa diz que Sokon Matsumura conheceu Tsuru em uma luta de rua em que ela era sua adversária. Ele não havia percebido que era uma mulher e ficou intrigado porque seus chutes na virilha não estavam causando nenhum efeito. Depois que descobriu que Tsuru era uma mulher, acabou se apaixonando e se casando com ela.
Um dos alunos de Matsumura, Chotoku Kyan, uma vez viu Tsuru carregando um saco de arroz de 60 quilos com apenas uma mão enquanto varria a cozinha.
Matsumura, certa vez, tinha algumas dúvidas em relação as habilidades da mulher, então um dia decidiu testá-la. Enviou-a em uma viagem sozinha à noite e se disfarçou de um ladrão para atacá-la na estrada. Tsuru nocauteou Matsumura com um uraken na têmpora, em seguida amarrou-o a uma árvore com o seu obi (faixa). Matsumura teve que passar uma noite desconfortável na estrada e teve que dar as devidas explicações no dia seguinte!
A esposa de Funakoshi
Não se sabe o nome dela, só que ela foi esposa de Gichin Funakoshi (precursor do estilo Shotokan de karatê). Mas em seu livro "Karatê-do: O Meu Modo de Vida", conta-se que sua esposa praticava kata quando estava cansada em vez de se deitar e sempre pedia para uma criança que massageasse seus ombros e braços. Naquela época, mulheres não deviam estudar o karatê, mas ela aprendeu apenas observando o marido enquanto treinava. Ela era conhecida por ser adepta a essa arte marcial e às vezes dava aulas no dojo quando Funakoshi se atrasava para a aula. Também foi por causa de Funakoshi que o karatê começou a aceitar mulheres praticantes.
A esposa de Funakoshi
Não se sabe o nome dela, só que ela foi esposa de Gichin Funakoshi (precursor do estilo Shotokan de karatê). Mas em seu livro "Karatê-do: O Meu Modo de Vida", conta-se que sua esposa praticava kata quando estava cansada em vez de se deitar e sempre pedia para uma criança que massageasse seus ombros e braços. Naquela época, mulheres não deviam estudar o karatê, mas ela aprendeu apenas observando o marido enquanto treinava. Ela era conhecida por ser adepta a essa arte marcial e às vezes dava aulas no dojo quando Funakoshi se atrasava para a aula. Também foi por causa de Funakoshi que o karatê começou a aceitar mulheres praticantes.
Murakami Hideo
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Murakami Hideo do Toda-ha Buko-ryu com sua sucessora Kobayashi Seiko. Fonte: Koryu |
Após a Guerra Russo-Japonesa de 1904 a 1905, as artes marciais tornaram-se parte regular do currículo escolar, no entanto, por serem tradicionais não foram consideradas adequadas para a formação da população de massa, pois incentivavam uma lealdade
feudalista. Além disso, muitas vezes
se concentravam em valores místicos e não se preocupavam
diretamente com as supostas necessidades do Japão imperial.
Em 1911, o Judô e o Kendô, ambas criações da era Meiji, foram introduzidos em escolas de meninos. Já em 1913, houve uma aula de judô no Seijyo Girl's High School em
Tóquio, mas a ideia de meninas lutando não se mostrou muito popular, pois
em 1936 havia apenas algumas dezenas de judocas que eram faixa preta no
Japão.
Durante o início da era Meiji, muitas pessoas perderam seus meios de subsistência e surgiu um fenômeno chamado Gekken Ko-gyo (show de espadas). Os samurais que sobraram uniram forças para criar espécie de circos em que faziam demonstrações, desafiando o público e usando espadas de madeira ou bambu, naginata, lança, kusarigama (kama, a foice, com uma corrente) ou qualquer outra arma que fosse selecionada pelo desafiante. Essas lutas tornaram-se bastante populares e havia também mulheres que usavam naginata para enfrentar homens armados com espadas de madeira ou bambu.
Uma das mais notáveis dessas mulheres foi Murakami Hideo, que se tornou a sétima diretora do Toda-ha Buko-ryu. Nascida em Shikoku, em 1863, estudou o Shizuoka-ryu Naginata-jutsu quando menina. Após a morte de seu sensei, ela saiu de casa ainda adolescente para estudar outros estilos. Murakami chegou em Tóquio quando tinha vinte e poucos anos e se tornou estudante de Komatsuzaki Kotoko sensei e, possivelmente, de Yazawa Isako sensei, a primeira, professora da décima geração e a segunda da sétima geração do Toda-ha Buko-ryu. Por ser uma mulher forte, ganhou o
Menkyo Kaiden (classificação por capacidade).
Menkyo Kaiden (classificação por capacidade).
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Kusarigama à esquerda e Naginata à direita |
Murakami, como não sabia ler e escrever, não tinha muitas chances de ganhar dinheiro, então se juntou ao Gekken Ko-gyo, lutando com o kusarigama ou a naginata para conseguir sobreviver. Há relatos de que ela nunca perdeu uma luta e posteriormente ela abriu um dojo na região de Kanda, em Tóquio, chamado Shusuikan (o dojo da água outonal), mas, mesmo assim, ela continuou bastante pobre. Quem a conheceu, conta que ela era uma mulher pequenina, gentil, mas bastante cautelosa, que viveu e morreu sozinha.
Keiko Fukuda
A Shihan Keiko Fukuda foi uma das mestres mais importantes para o judô. 10º dan, ela se dedicou por mais de 77 anos a essa arte, desde seus primeiros anos de prática na Kodokan nos anos 30, onde foi foi convidada por Jigoro Kano, fundador do judô e amigo do seu avô, Hachinosuke Fukuda ( um dos primeiros três mestre do Ju-jitsu e ensinou Jigoro Kano).
Nos Jogos Olímpicos de Tóquio de 1964, sensei Fukuda fez uma impressionante apresentação de kata, quando o judô tornou-se um esporte olímpico. Sua visão humanista aplicada no judô veio dos seus estudos de literatura japonesa na Universidade de Showa e também de artes tradicionais como o Sho-dô (a arte da caligrafia), Cha-dô (cerimônia do chá) e de Ikebana (arranjo de flores).
Quando ela se mudou para os Estados Unidos, em 1974 ela organizou o primeiro campo de treinamento de judô exclusivamente para mulheres. Este evento ganhou o tradicional nome Keiko Fukuda Joshi Judo Camp. Ela também foi quem iniciou o Keiko Fukada International Kata Championship, em 1998.
Ela desistiu do casamento e deixou sua terra natal para dedicar sua vida ao judô, lutando contra a discriminação de gênero, o qual a impedia de passar de faixa, enquanto homens menos qualificados do que ela eram promovidos.
Em 1990 ela ganhou e foi presenteada pelo governo japonês com a "Ordem do Tesouro Sagrado", em 1977, a PANWA honrou-a com o prêmio Lifetime Achievement e em 2011 ela foi promovida a 10º dan, a primeira mulher a ser honrada dessa forma e a última aluna sobrevivente de Jigoro Kano. Ela também escreveu dois livros: "Nascidas para o combate: kata para mulheres" (1973) e"Ju no Kata" (2004).
"Nós e o mundo do judô perderam uma senhora maravilhosa, forte, gentil e bela; Que viveu a sua vida pelo seu lema que guiou toda a sua vida "Seja forte, Seja gentil, Seja linda", palavras essenciais para viver não só no judô, mas na vida. Ela será uma perda para todos os seus alunos, amigos pessoais e o resto do mundo do judô".
Se quiser conhecer mais sobre ela, tem um documentário feito pelo Sport TV que você pode conferir abaixo.
Oshiro Nobuko
E para finalizar esse post com tantas mulheres incríveis temos a sensei Oshiro Nobuko, 8º dan, a mulher com o mais alto dan no karatê em Okinawa. Foi aluna do sensei Yochuko Higa em 1975 e, em 1993, o sensei autoriza-a a abrir o primeiro dojo ministrado por uma mulher.
Atualmente ela tem mais de 400 alunos na cidade de Urasoe e seu dojo se chama Taishikan.
Jesse Emkamp, um karateka do estilo shito-ryu e blogueiro dos Estados Unidos, fez uma série de vídeos em Okinawa, um deles se passa no dojo da sensei Oshiro Nobuko. Você pode assistir abaixo, infelizmente, é em inglês, mas dá para acompanhar e ver como ela é incrível!
Termino esse post com uma imensa felicidade. Foi uma grande pesquisa e fico feliz de ter achado tantas mulheres que com força e dedicação inspiraram dezenas de outras gerações a seguirem seus passos. Se eu treino hoje é não só para aperfeiçoar minha técnica, mas para superar minhas próprias inseguranças e aumentar minha coragem. Dedico as mulheres não um feliz dia, mas muitos dias de luta para que consigam enfrentar qualquer obstáculo e mostrar seu valor para o mundo.
Referências:
https://kmbryk.wordpress.com/2012/03/16/gichins-wifes-karate/
http://www.keikofukudajudofoundation.org/?page_id=5
https://travel67.com/2015/11/09/nobuko-oshiro-kyoshi-8th-dan-okinawa-karate-do-shorinryu-taishinkan-association/
http://okinawachikaradojo.blogspot.com.br/p/sensei-nobuko-oshiro.html
Keiko Fukuda
A Shihan Keiko Fukuda foi uma das mestres mais importantes para o judô. 10º dan, ela se dedicou por mais de 77 anos a essa arte, desde seus primeiros anos de prática na Kodokan nos anos 30, onde foi foi convidada por Jigoro Kano, fundador do judô e amigo do seu avô, Hachinosuke Fukuda ( um dos primeiros três mestre do Ju-jitsu e ensinou Jigoro Kano).
Nos Jogos Olímpicos de Tóquio de 1964, sensei Fukuda fez uma impressionante apresentação de kata, quando o judô tornou-se um esporte olímpico. Sua visão humanista aplicada no judô veio dos seus estudos de literatura japonesa na Universidade de Showa e também de artes tradicionais como o Sho-dô (a arte da caligrafia), Cha-dô (cerimônia do chá) e de Ikebana (arranjo de flores).
Quando ela se mudou para os Estados Unidos, em 1974 ela organizou o primeiro campo de treinamento de judô exclusivamente para mulheres. Este evento ganhou o tradicional nome Keiko Fukuda Joshi Judo Camp. Ela também foi quem iniciou o Keiko Fukada International Kata Championship, em 1998.
Ela desistiu do casamento e deixou sua terra natal para dedicar sua vida ao judô, lutando contra a discriminação de gênero, o qual a impedia de passar de faixa, enquanto homens menos qualificados do que ela eram promovidos.
Em 1990 ela ganhou e foi presenteada pelo governo japonês com a "Ordem do Tesouro Sagrado", em 1977, a PANWA honrou-a com o prêmio Lifetime Achievement e em 2011 ela foi promovida a 10º dan, a primeira mulher a ser honrada dessa forma e a última aluna sobrevivente de Jigoro Kano. Ela também escreveu dois livros: "Nascidas para o combate: kata para mulheres" (1973) e"Ju no Kata" (2004).
"Nós e o mundo do judô perderam uma senhora maravilhosa, forte, gentil e bela; Que viveu a sua vida pelo seu lema que guiou toda a sua vida "Seja forte, Seja gentil, Seja linda", palavras essenciais para viver não só no judô, mas na vida. Ela será uma perda para todos os seus alunos, amigos pessoais e o resto do mundo do judô".
Dr. Shelley Fernandez, PHD
Se quiser conhecer mais sobre ela, tem um documentário feito pelo Sport TV que você pode conferir abaixo.
Oshiro Nobuko
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Sensei Oshiro Nobuko, foto por Travel67 |
E para finalizar esse post com tantas mulheres incríveis temos a sensei Oshiro Nobuko, 8º dan, a mulher com o mais alto dan no karatê em Okinawa. Foi aluna do sensei Yochuko Higa em 1975 e, em 1993, o sensei autoriza-a a abrir o primeiro dojo ministrado por uma mulher.
Atualmente ela tem mais de 400 alunos na cidade de Urasoe e seu dojo se chama Taishikan.
Jesse Emkamp, um karateka do estilo shito-ryu e blogueiro dos Estados Unidos, fez uma série de vídeos em Okinawa, um deles se passa no dojo da sensei Oshiro Nobuko. Você pode assistir abaixo, infelizmente, é em inglês, mas dá para acompanhar e ver como ela é incrível!
Termino esse post com uma imensa felicidade. Foi uma grande pesquisa e fico feliz de ter achado tantas mulheres que com força e dedicação inspiraram dezenas de outras gerações a seguirem seus passos. Se eu treino hoje é não só para aperfeiçoar minha técnica, mas para superar minhas próprias inseguranças e aumentar minha coragem. Dedico as mulheres não um feliz dia, mas muitos dias de luta para que consigam enfrentar qualquer obstáculo e mostrar seu valor para o mundo.
Referências:
https://kmbryk.wordpress.com/2012/03/16/gichins-wifes-karate/
http://www.keikofukudajudofoundation.org/?page_id=5
https://travel67.com/2015/11/09/nobuko-oshiro-kyoshi-8th-dan-okinawa-karate-do-shorinryu-taishinkan-association/
http://okinawachikaradojo.blogspot.com.br/p/sensei-nobuko-oshiro.html
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